ATUAÇÃO DO CORPO DE BOMBEIROS NO SOCORRO A VÍTIMAS EM ÁGUAS RÁPIDAS COM O USO DE FLUTUADORES E CORDAS

Eduardo César Faria de Souza
Lívia Terra Cotrim
Bruno de Oliveira Cunha
Luiz Eduardo Pereia
Gabriel de Matos
Daniela Aparecida Anunciação da Silva

INTRODUÇÃO

Após criteriosa analise dos dados operacionais (fornecidos pela Divisão de Operações do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo – CBMESP) do período de janeiro a julho de 2020, observamos que foram atendidas duas mil seiscentas e duas ocorrências que envolveram operações de Salvamento Aquático. As operações de Salvamento Aquático, por sua vez, caracterizam alto risco para os profissionais, que se expõem ao perigo na árdua missão de salvar vidas.

Com a evolução tecnológica e humana é natural que o cenário do salvamento também exija corriqueiramente o aprimoramento e o constante treinamento das equipes de emergências, sendo assim, este estudo tem como objetivo propor uma técnica segura e eficiente, para o emprego em ocorrências com vítimas conscientes arrastadas por águas rápidas.  O vídeo abaixo tem por objetivo contextualizar o leitor em relação ao cenário a ser empregada a técnica proposta.  

Vídeo 1: Ônibus arrastado por correnteza

Fonte: YouTube

A fim de facilitar o entendimento técnico e padronizar os conceitos técnicos, reforçamos algumas terminologias empregadas no serviço de salvamento aquático (SANTOS et al, 2020):

Rio abaixo: para aonde a água corre;

Rio acima: de onde a água vem;

Direita do rio: olhando rio abaixo, é a margem da direita;

Esquerda do rio: olhando rio abaixo, é a margem esquerda;

Correnteza: força que a água tem ao se deslocar para baixo (fluxo);

Águas rápidas: todo e qualquer curso de água com um fluxo constante, que dificulta o deslocamento de um veículo, embarcação ou uma pessoa andando ou nadando;

Alagamento ou enchente: acumulo anormal e excessivo de água em determinados locais por deficiência no sistema de drenagem;

Enxurrada: escoamento superficial concentrado e com alta energia de transporte, que pode ou não estar associado a processos fluviais;

Corda: ou cabo, é um aglomerado de fibras que tem múltiplos usos nas atividades de salvamento, para ancorar, prender, içar ou resgatar;

Flutuador: peça de espuma porosa flutuante que tem por objetivo manter a vítima na superfície d’água, fornecendo flutuabilidade de no mínimo 120kg.

EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL E COLETIVA

Conforme o Manual de Fundamentos do Corpo de Bombeiro (CBPMESP, 2019), as operações de Salvamento em Enchentes requerem procedimentos de segurança específicos dadas as suas peculiaridades, sendo necessário estudo do referido manual para balizar uma atuação segura no teatro de operações.

Para o desenvolvimento da operação, faz-se necessário, além do EPI composto pelo uso de capacete para salvamento aquático, “flip-line”, colete salva-vidas, roupa isotérmica, apito, calçado, luva e equipamento de corte, serão necessários 02 flutuadores, 02 cordas flutuantes (sacolas de arremesso) e 01 corda de salvamento.  

Dentre os diversos riscos, podemos citar possíveis acidentes: contaminação, contusão, cortes, escoriações, exposição prolongada ao frio, afogamento e queda.

SALVAMENTO EM ÁGUAS RÁPIDAS COM FLUTUADORES E CORDAS

Nos cenários de enchentes e inundações, bem como salvamentos em corredeiras as vítimas podem ser arrastadas rio abaixo, tendo seu deslocamento mensurado pela força e velocidades das águas, impondo ao bombeiro agilidade, destreza, técnica e muito preparo na execução do resgate.  As equipes que atuam diante desses eventos atuam sobre alta pressão e responsabilidade, onde um erro pode ser crucial para o desfecho negativo do atendimento. Desta forma existem algumas técnicas específicas para cada tipo de situação.

Durante o processo de revisão de literatura, destacamos uma técnica utilizada pelo Los Angeles County Fire Department, onde com o emprego de uma mangueira de combate a incêndio fechada em ambas as extremidades, inflada com ar, a fim de servir como flutuador. A vítima se depara com a mangueira flutuando e se agarra a ela. Os bombeiros acima da ponte caminham na mesma direção para que a mangueira se una, mantendo a pessoa envolta pelo objeto flutuante. Num segundo momento, agora juntos, os bombeiros acima da ponte caminham, conduzindo a vítima à margem, para que seja recebida por outros dois bombeiros. Segue o vídeo exemplificando a técnica.

Vídeo 2: Uso da mangueira como flutuador

Fonte: Vimeo

Utilizando como referência a técnica acima mencionada, propomos a alternativa com o uso de flutuadores ao invés da mangueira, que requer equipamentos específicos de produção artesanal (tampões com bicos compatíveis com engates rápidos dos equipamentos de proteção respiratória).

Para realizar o salvamento utilizando a técnica que será apresentada, o bombeiro deve estar em local seguro (em cima da ponte, presos à estrutura e à margem, devidamente ancorados), utilizando os EPI’s e realizar os procedimentos que serão apresentados no vídeo.

Vídeo 3: Uso do flutuador em vista frontal

Fonte: YouTube

Vídeo 4: Uso do flutuador em vista lateral

Fonte: YouTube

A técnica foi realizada a seco e em corredeira de forma experimental, obtendo resultados satisfatórios, com a vítima terminando na margem, sendo amparada pelos bombeiros. Para tal, foram necessários quatro operadores de salvamento aquático, posicionados dois acima da ponte e dois à margem.

Demonstraremos a seguir o passo a passo realizado para montagem do sistema.

Figura 1: Materiais utilizados

Fonte: Própria dos autores

Foram empregados os seguintes equipamentos: dois flutuadores, duas sacolas de arremesso com 20 metros (flutuantes) e uma corda estática de 50 metros.

MONTAGEM

O primeiro passo é a união de dois flutuadores pelos mosquetões do equipamento.

Figura 2: União dos flutuadores pelo mosquetão

Fonte: Própria dos autores

Após a união dos flutuadores, foram conectados os flutuadores às cordas flutuantes das sacolas de arremesso utilizando o olhal metálico (figura 3).  Para tal, foram removidos os cordeletes dos flutuadores.

Figura 3: União do flutuador com a corda flutuante

Fonte: Própria dos autores

Em seguida, as cordas flutuantes de 25m foram unidas a um cabo maior (corda de salvamento), considerando a altura média das pontes. Para tal, foi realizado um nó oito dobrado (duplo) com as duas cordas flutuantes, para envolver a vítima com o conjunto.  

Figura 4: União das cordas flutuantes à corda de maior comprimento

Fonte: Própria dos autores

Os operadores de salvamento aquático acima da ponte, devidamente ancorados à estrutura, mantém o conjunto formado pelos flutuadores e cordas flutuantes na linha d’água, a fim de que a vítima literalmente “enrosque” nos flutuadores ou nas cordas flutuantes das sacolas de arremesso, pois desta forma, a força da água conduzirá a vítima rio abaixo, envolvendo-a pelos flutuadores.

Figura 5: Vítima rio abaixo, sob a ponte

Fonte: Própria dos autores

Conforme o conjunto formado por vítima, flutuadores e cordas flutuantes sofrem a ação da força das águas, os cabos flutuantes ficarão tensionados.

O operador de salvamento aquático acima da ponte se desloca em direção a margem, para direcionar a vítima aos operadores de salvamento aquático que aguardam a margem.

Figura 6: Movimentação dos bombeiros

Fonte: Própria dos autores

Figura 7: Posicionamento dos bombeiros na margem

Fonte: Própria dos autores

Os operadores de salvamento aquático que estão à margem devem permanecer ancorados para receber a vítima.

Figura 8: Bombeiros recebendo a vítima

Fonte: Própria dos autores

Observe (figura 8) os operadores de salvamento aquático que estão em cima da ponte terminam unidos, mantendo o sistema tensionado pelo cabo de 50m, considerando a possibilidade de uma ponte elevada. Nesse caso, apenas as cordas das sacolas de arremesso não seriam suficientes para que vítima fosse alcançada pelos operadores de salvamento aquático da margem.

CONCLUSÃO

A operação de salvamento aquático em águas rápidas configura alto risco para os bombeiros que realizarão a localização, acesso, estabilização, resgate e transporte de vítimas, dada a exposição aos riscos abordados. A técnica apresentada visa mitigar as possibilidades de acidentes, pois não há a necessidade da entrada de bombeiros nas águas em primeiro momento. Ainda se observa como vantagem a rapidez na montagem e a disponibilidade dos equipamentos nas unidades operacionais do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo, restando assim mais uma alternativa a ser empregada sem implicar custos adicionais.

REFERÊNCIAS

Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo. Manual de Fundamentos. PMESP, 2019.

Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo. Operações / Painel de Análise. PMESP, 2020.

Santos, Ednei Fernando dos, 1981 (Org.). Manual de Referência de Salvamento Aquático/ Ednei Fernando dos Santos; Tiago Régis Franco de Almeida. Leandro Rodrigues; Daniel Silva de Oliveira. Erci Reimberg (colaborador). Departamento de Salvamento Aquático – 1ª ed – São Paulo, 2020.

LA County Fire Training. INFLATED FIRE HOSE RESCUE SYSTEM. 2015. (1m40s). Disponível em: https://vimeo.com/110624209. Acesso em 18 de julho de 2020.  

Canal Super Vídeos. ÔNIBUS É ARRASTADO POR FORTE CORRENTEZA – SUPER VIDEOS. 2018. (2m21s). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=K0uWn7Em1fc. Acesso em 18 de julho de 2020.

Canal Edusouza92. DEMONSTRAÇÃO DE SALVAMENTO EM ÁGUAS RÁPIDAS COM FLUTUADORES E CORDAS. 2020.  (22s). Disponível em:  https://youtu.be/7gspPSjSpqc. Acesso em 18 de julho de 2020.

Canal Edusouza92. DEMONSTRAÇÃO DE SALVAMENTO EM ÁGUAS RÁPIDAS COM FLUTUADORES VISTA LATERAL. 2020.  (23s). Disponível em:  https://youtu.be/Bu3RWDMWm_A. Acesso em 18 de julho de 2020.

Comments

Leave a comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *